terça-feira, 15 de novembro de 2011

Advento do Senhor - Ano Litúrgico B

"Não deixa a lamparina apagar!”

Estamos iniciando um novo tempo litúrgico! No início de cada novo ano, muitos brasileiros já começam cheios de dívidas no mercado e com os cartões de créditos estourados. Neste contexto, o devedor não tem saída... Precisa cuidar para não aumentar a sua dívida! Com o Evangelista Marcos é quase do mesmo jeito: o ano litúrgico já começa com o sinal amarelo! Por que será?! Marcos é o primeiro texto Evangélico da bíblia e, como tal, não tem muitas papas na língua... Na vida muitas vezes precisamos estar na companhia de pessoas como Marcos, que nos dizem ás coisas que não queremos ouvir: “Cuidado, pois não sabeis nem o dia e nem a hora!” (Mc 13, 35).
O que o evangelista nos pede para cuidar neste tempo? - Com certeza as nossas comunidades sabem que a cor deste tempo é roxo, que há de preparar a coroa do advento e de guardar o hino do glória para o Santo Natal. Então, o que ainda nos falta? O profeta Isaías é quem nos diz: “Tu te irritaste, Senhor, porque nós pecamos; mas é nos caminhos de outrora que seremos salvos.” (Is 64,4b). Então, a proximidade da vinda do Senhor é tempo de alegre espera e um convite a rever a nossa conduta (Is 64,7). Mas, ânimo meu povo, “eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho” (Mc1, 2), para chamar o povo a conversão, para salvar o que se faz perdido. “Consolai o meu povo, consolai-o! Falai ao coração de Jerusalém...” (Is 40,1-2). Porque “como um pastor o Senhor apascenta o rebanho e o reúne, com a força do seu braço e carrega-o ao colo; ele mesmo tange as ovelhas-mães” (Is 40,11).
Mas o povo ainda não conseguia reconhecer os teus sinais... e, inquieto, se perguntava porque, então, João anda batizando se ele não é o messias? (Jo 1,25). A resposta de João dá o que falar: “No meio de vós está aquele que vós não conheceis!” (Jo 1,26). Então, “cuidai de tudo aquilo que sois – espírito, alma e corpo – pois Aquele que te chamou é fiel” (Ts 5,23-24a) e já está no meio de nós. Portanto, o tempo do advento é antes de tudo convite à conversão; pois, como Maria, a Igreja deve ouvir: “Não tenhas medo” (Lc 1,30), porque “o seu reino não terá mais fim!” (Lc 1,33). Como o Senhor se aproxima, vigiai! Como quem tem contas a pagar, cuidai para que não sejais pegos de surpresa.

Felipe Soriano, SJ

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Kamak Kawsay "Bem-viver é bem conviver"

Este pequeno texto deseja contribuir na construção de uma ponte entre o tema da Agenda Latino Americana 2012 e o convite da 35º CG sobre a comunidade Jesuítica enquanto missão. Porque nosso mundo padece daquela sabedoria do bem-viver que nos ensina o Bem-conviver e cuidar do desejo. (Felipe Soriano).  

Vamos ao texto:

Torna-se um grande desafio não deixar morrer as utopias que trazemos e, da mesma forma, recolocá-las na base de nossas buscas para iniciar um novo processo de reconhecimento de si e do mundo que se abre neste novo contexto mais injusto e global. Dizia o sábio: somos filhos de nossas experiências, algumas muito bonitas e outras sofridas e delicadas. Entretanto, nossos limites não nos afastam, mas, antes, aproxima-nos uns aos outros na busca do ser supremo que dá sentido às nossas vidas que chamamos Deus. Falar de vida, de desejo e de utopia é coisa de quem ainda sonha. É coisa de quem ainda não desistiu de ser feliz com os outros; e porque aprendeu a bem-viver, convida à saber-conviver.

Na vida vamos tomando consciência de que temos maturidade suficiente para muitas coisas e, muitas vezes, sentimos a necessidade de dizer, para quem quiser ouvir, que não somos mais crianças. Ser adultos o suficiente é fato que não se pode negar, mas, com frequência, falta-nos aquela liberdade para reconhecer que “somos o caminho que escolhemos para alcançar essa vida boa, esse bem-viver, esse conviver com os outros”. Custa-nos admitir que “cada um é caminho para o outro na busca da felicidade”, porque a felicidade não está ligada apenas à satisfação de preferências ou gostos individuais, mas, sobretudo, como oferta e garantia de que todos se realizem plenamente enquanto indivíduos humanos.

Vivemos tempos difíceis onde o consumo ganha contornos políticos, sociais, econômicos, espirituais e relacionais, fazendo da busca pela felicidade um dilema que até Deus tem dificuldade para resolver. Nosso Pai, Inácio, pedia-nos insistentemente que cuidássemos do desejo, que deseje desejar... Na modernidade, o desejo de consumo não é apenas individualista enquanto tal, mas também enquanto realização. Ridículas são as frases que condensam a felicidade numa garrafa de coca-cola, aparelho de celular, automóvel do ano, roupa de marca, jóia cara... sobre o slogan  de uma boa-vida mesmo solitária, na acumulação ou confiada num progresso insustentável e a qualquer custo.

Esquecemos os antigos que afirmavam que o lugar do homem é na pólis e aceitamos passivamente o imperativo do fim da história e das utopias. Nossos pais nunca nos contaram que não é possível continuar sem Sumak Kawsay? De fato, não é estranho constatarmos que não vivemos bem, porque não é possível bem-viver sem bem-conviver. Os povos andinos de ontem e de hoje nos convidam a dizer Sumak Kawsay, denunciando a necessidade de uma mudança de paradigma, ou melhor, de mentalidade para os nossos povos. A crise econômica mundial, além de esconder grandes urgências de ordem ética e moral, é quem coloca a pergunta sobre o estilo de vida que nós precisamos neste momento da história que nos obriga repensar o homem, a sociedade e a vida no planeta. “O nosso mundo padece de gente que nos ensine a bem-viver e a contar os nossos dias” (Sl 90,12). Como desejamos um dia... há de cuidar do desejo, sempre!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O território da fé

“A comunidade eclesial é algo melhor do que um ‘aglomerado’ de indivíduos fiéis, de um serviço público da religião como consumo cultural: é um corpo vivo cujas células estão conectadas ao tecido de uma sociedade em transformação cultural permanente”. A opinião é de Gérard Defois, arcebispo emérito de Lille, na França, publicada no jornal francês La croix, 17-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto. 

Eis o texto.

O problema da Igreja em âmbito rural não é só de hoje. Há 30 anos, a maior parte das dioceses francesas realizou mudanças territoriais, muitas vezes reagrupando as paróquias em torno de uma central, que deveria se tornar o centro das atividades pastorais.

Nesse contexto, lembra-se frequentimente o trabalho do canônico Boulard nos anos 1960 em todo o país. Dele resulta a criação de equipes de padres, de conselhos de leigos para repartir as tarefas. Depois, veio o Concílio, a equipe de animação pastoral com o recurso freqüente ao cânone 517 § 2, enquanto a ação católica iniciava ações missionárias, continuavam o seu caminho.

Tendo participado da pastoral de conjunto segundo o padre Boulard, devo reconhecer que os nossos critérios de análise estavam contidos basicamente na pastoral cultual e catequética. Tratava-se, há 60 anos, de um ruralidade tradicional que estava “decolando” no plano econômico com a industrialização do material e das produções agrícolas, mas também com a formação escolar e universitária dos jovens rurais, que, passou a deixar o território de origem.

A passagem da Jeunesse Agricole Cattholique (JAC) ao Mouvement Rural de la Jeunesse Chrérienne (MRJC) é a tradução mais evidente disso. Mas nós ainda tínhamos a imagem ideal de um conjunto estável em torno da missa dominical, dentro do movimento global da sociedade. 

Hoje, o espaço rural é marcado pela mobilidade e pela fluidez da população que o habita e do qual uma parte importante não trabalha lá. Estamos bem longe da comunidade tradicional, em que a Igreja oferecia um lugar de encontro e de atividades de tempo livre, um lugar de referência para a vida moral e espiritual – aquilo que se definia como pastoral de enquadramento, com ritos e pontos de referência. Segundo esse contexto imaginário, a diminuição dos padres, dos religiosos, das religiosas se provocou uma reviravolta crítica.

Agora, o próprio território paroquial é um lugar de passagem, onde exceto um núcleo de responsáveis que desenvolve atividades funcionais se encontra de modo irregular. É a cultura da passagem, do efêmero, do específico. Queremos continuar mantendo presença de padres para desenvolver ali os mesmos serviços do passado é importante. Mas essa forma de presença revela-se inadequada sobretudo para essa situação de mobilidade.

Se o ministério apostólico do padre desempenha, esta última é, por natureza, submissa a Cristo na sua totalidade e na sua obra de comunhão. O cardeal Ratzinger, no início dos anos 1980, rejeitando um centralismo episcopal da Igreja Universal, escrevia: “A finalidade eclesiológica essencial do colégio [episcopal] não é a de formar um governo central da Igreja, mas ao contrário, de contribuir para edificar a Igreja como um organismo vivo que cresce e é unido em todas as suas células vivas” (Église, oecuménisme et politique, Ed. Fayard, 1978, p. 74).

A vida da Igreja não se reduz a uma instituição que deve funcionar a qualquer custo e de forma eficiente, senão rentável. Não tem nada a ver com a racionalidade administrativa dos serviços públicos da sociedade, da gestão de pessoal ou do funcionamento de estruturas. Ela é presença em termos de gratuidade e de dom. remonta à ordem do significado sacramental, da existência no mundo e do nascimento de um corpo.

Para isso, é preciso que nos interroguemos sobre algumas das nossas novas paróquias centradas mais em uma forma de serviço do que deve funcionar do que sobre o nascimento e o crescimento de células vivas locais.

Querer reagrupar a pastoral no centro da cidade ou nas capitais do interior comporta o risco de legar a nossa presença aos idosos aposentados, àqueles que têm bons salários, aos militantes dos anos 1970. A centralização provoca, queira-se ou não, um empobrecimento. Nos nossos dias, a vida surge muitas vezes na periferia.

No ano passado, a Conferência dos Bispos da França havia considerado realizar cerca de 60 iniciativas que anunciavam novas formas de presença nessas terras de mobilidade e de fluidez de relações: mais orientadas, mais ligadas a eventos. Encontros, peregrinações, comunidades de jovens responsáveis pela vida eclesial, crismas festivas de Pentecostes etc. fazem com que surjam formas de “eclesialidade” diferente das do passado.

Esses germes de tecido são o testemunho de uma Igreja sacramento de salvação para todos. Porque a comunidade eclesial é algo melhor do que um “aglomerado” de indivíduos fiéis, de um serviço público da religião como consumo cultural: é um corpo vivo cujas células estão conectadas ao tecido de uma sociedade em transformação cultural permanente.

A consciência de ser cristão não pode se reduzir a uma filiação ideológica, nem a convicções relacionadas a valores. É fonte de reações, traz em germe uma vida fraterna e responsável. A pastoral está ao serviço de tais relações requer um descentramento dos nossos interesses, segundo uma lógica de acompanhamento das pessoas e não de regulamentação ou de padronização das práticas.

Paulo não impôs às comunidades de Corinto nenhuma dependência a Jerusalém, mas sim relações de comunhão e de solidariedade. As Igrejas locais são lugares do Espírito, segundo o Apocalipse, porque o Espírito se estabelece e, uma comunidade de raízes humanas, aquelas em que a fé ganha vida.

Liberta-te, mesmo que tarde.

Nasceu mais um homem livre,
E morreu mais um escravo de sua própria valia.
Se todo empregado tem um preço,
Vale mais quem faz uma coisa só...
Se a vida é um jogo, quem é o melhor jogador?
Se a arte vale mais do que o artista, porque esperar que ele morra?
De fato, o que é bonito não foi feito para se mostrar...
A utilidade é quem preside o belo e o feio
E se engana quem acha que é livre para dizer o contrário.
Até o livre que pensa é medido pelo seu significado,
Mesmo que não signifique nada para ninguém e nem para os livros que escreve.
Posso achar que estou errado... mas não quero morrer enganado.
Só peço que me explique quanto vale para você o seu trabalho,
E por quanto valoram os seus aplausos?
Então, trabalhe menos, aumente mais o seu salário!
Faça tudo ficar sempre um pouquinho mais complicado.

Felipe Soriano.
20 de agosto de 2011


Demasiado... mais humano

Humano apenas,
E porque demasiado... mais humano.
Nada e arte são capazes de entorpecer o meu silêncio,
Demasiado barulhento para não ser dito.
Você anjo das minhas angústias e mais fiel companhia
Quem vive em minhas mentiras?
Releva hoje a verdade da minha demasia,
Enquanto estou acordado ou em vigília.
Depois que te conheci passei a acreditar na retina.
O espelho só enquadra quem dele precisa,
Para ver o que não se diz em nenhuma língua.

Felipe Soriano.
30 de junho de 2011


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Celebração afro-brasileira da Palavra de Deus

RITOS INICIAIS
Motivações:
(Explicar o motivo da celebração para a assembléia, especialmente nas datas significativas, como 20 de novembro ou em outra data importante para a comunidade negra).
Canto e procissão de entrada:
(Entram os três animadores da celebração, junto com crianças que levam toalha, flores etc. ao altar. Outras pessoas podem levar os símbolos que ajudem a expressar o motivo da celebração).

SAUDAÇÃO À TRINDADE
Presidente: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!
Leitor A: Em nome do Deus de todos os nomes, em nome do Pai, que faz toda a carne, a negra e a branca, vermelha no sangue.
Leitor B: Em nome do Filho, Jesus nosso irmão, que nasceu moreno da raça de Davi.
Leitor C: Em nome do Espírito Santo, a força da vida e da liberdade.
Leitor A: Em nome do Deus verdadeiro que nos amou primeiro sem dividição. Em nome dos três que são um Deus só. Aquele que era, que é e que será.
Leitor B: Em nome do povo que espera na graça da fé o Quilombo Páscoa que o libertará.
Leitor C: Em nome do povo sempre deportado pelas brancas velas, no exílio dos mares, marginalizados nos cais, nas favelas e até nos altares.
Leitor A: Em nome do povo que fez seu Palmares, que ainda fará Palmares de novo, Palmares do povo.
(Invocação aos antepassados)

LITURGIA DA PALAVRA
(A equipe de liturgia escolhe textos Bíblicos à luz do Ano Litúrgico no contexto dos acontecimentos da vida do povo negro com suas experiências e características culturais. A liturgia da palavra compõe-se de leituras tiradas da Sagrada Escritura, salmo responsorial, aclamação ao Evangelho e homilia).

Canto e procissão da Bíblia:
(Durante o canto entra um grupo de pessoas dançando; a pessoa encarregada de proclamar os textos bíblicos leva a Bíblia. Diante da Bíblia, na procissão, alguns levam velas acesas; duas tigelas de barro [Cerâmica]. Uma traz brasas com incenso [incensando o povo ]; outra, com água de cheiro, e são depositadas sobre uma mesinha disposta diante de todos).
Leitura dos textos bíblicos:
1ª Leitura:
Salmo Responsorial:
Aclamação ao Evangelho:
Proclamação do Evangelho:
Partilha da Palavra de Deus (Homilia).

(Após a proclamação dos textos bíblicos, coloca-se a Bíblia sobre a mesa da Palavra e convida-se a assembléia a uns instantes de silêncio. O animador toma a Bíblia e a faz passar de mão em mão. As pessoas que desejam partilhar a mensagem da Palavra de Deus, façam-no assim que a Bíblia chegar em suas mãos. O animador motiva a assembléia a partilhar a mensagem que a Palavra de Deus provocou em cada um. A assembléia, durante um certo tempo, faz a atualização da Palavra).

Momento Penitencial:
Expressão simbólica (Ao toque do atabaque, entram símbolos: um atabaque ou outro instrumento afro-brasileiro preso em correntes com cadeado; uma vela apagada; uma máscara branca num rosto de pessoa negra; elementos da natureza, como plantas machucadas... que são colocadas sobre uma mesinha [ou em outro lugar oportuno], à vista de todos, para provocar súplicas de perdão e revisão de vida à luz da Palavra de Deus).

- ORAÇÃO COLETA DE PERDÃO:
Deus todo-poderoso, berço e fonte de energia,
tende compaixão de nós, vossas criaturas,
perdoai nossos pecados e guiai-nos no caminho do bem,
até a vida eterna e feliz.

Todos respondem (Cantando): Assim seja, meu Deus, amém!
Aspersão do povo com água de cheiro (Tomar a tigela com água de cheiro e, com um ramo, aspergir o povo).

MOMENTO DE LOUVOR
(Procissão das oferendas com alimentos [com alimentos típicos da região, canto e expressão corporais]. Aqui cabem os benditos populares, ladainhas e salmos, a exemplo do salmo 150 do Ofício Divino das Comunidades ou louvações).
1./:Louvemos todos juntos o nome do Senhor:/,
/:Por nós fez maravilhas, eterno é seu amor!:/
2./:Louvemos pelo Cristo que veio nos salvar:/,
/:Por nós deu o seu sangue, sem fim quis nos amar!:/
3./:Louvemos por Maria, a mãe de todos nós:/,
/:com ela venceremos o inimigo mais atroz.:/
4./:Louvemos com pandeiros, sanfonas, violões:/,
/:louvemos com cirandas, com sambas e baiões.:/
5./:Louvemos pela terra, que nos dá de comer:/,
/:a terra é de todos, pra todos deve ser.:/
6./:Louvemos pelos pobres que vivem na união:/,
/:na luta dos pequenos, Jesus se faz irmão.:/
(Zê Vicente)
(Durante o momento de louvor, onde houver comunhão eucarística, pode-se trazer e colocar sobre o altar as hóstias consagradas).

RITO DE COMUNHÃO
Oração do Pai Nosso...
Oração do presidente:
“Senhor nosso Deus, criastes todas as coisas para a glória do vosso nome e como alimento e bebida destes aos vossos filhos os bens da criação, a fim de que eles vos bendigam; mas a nós destes uma comida e bebida espirituais de maior valor para a vida eterna, que em Jesus Cristo, vosso Filho, nos alimenta hoje e nos dá força.”
Ou
“Cristo Jesus, nós acolhemos vossa presença-doação e vós louvamos por lembrar-nos sempre a primazia do amor. Vós pedimos converter-nos sempre mais à fraternidade. Com vosso força, queremos ser testemunhas de vosso reino de justiça, fraternidade e paz. Provai e vede como o Senhor é bom. Feliz quem nele encontra a vida. Eis o Filho de Deus que doou sua vida pela nossa liberdade.”

COMUNHÃO
Canto:
Momento de silêncio e meditação:

MOMENTO DA PARTILHA DOS ALIMENTOS E COMPROMISSO
(Neste momento, as pessoas partilham os alimentos trazidos na procissão das ofertas e manifestam seu compromisso de vida).

BÊNÇÃO FINAL
Presidente:
- O Deus todo-poderoso e Pai de bondade vos livre sempre de todos os males do corpo e do espírito e derrame sobre vós as suas bênçãos. Amém!
- Torne vossos corações atentos à sua Palavra a fim de que transbordeis de emergia espiritual o mundo. Amém!
- Assim, abraçando o bem e a justiça, possais sempre valorizar e bendizer os dons divinos e andar pelos caminhos que levam à libertação e à paz. Amém!
Abençoe-vos Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!
Vamos em paz, e que o Deus do amor e da esperança nos acompanhe.

domingo, 17 de abril de 2011

Batismo-Crisma como itinerários da Igreja


O primeiro desafio posto neste curso a partir da obra “Nas fontes da fé cristã – uma teologia do Batismo-Crisma” é repensar os sacramentos da iniciação cristã em sua unidade inicial e, o segundo, refletir a desagregação contemporânea entre o Sacramento e a vida. Isso porque, para compreender corretamente qual é a fé da Igreja, precisamos pensar Batismo-Crisma de forma integrada para não cometer erro em sua interpretação; pois, se admitimos que no Sacramento do Batismo recebemos o Espírito Santo, então o que seria a Crisma? Ou, partindo dessa lógica, o que seria a Crisma para um batizado que já tem o Espírito Santo: será que o Batismo possui data de validade e por isso é necessária uma segunda dose? Tais equívocos não podem passar despercebidos à nossa reflexão. Por isso, partindo da leitura da Tradição Apostólica e dos Santos Padres da Igreja, constatamos que a iniciação cristã é um momento importantíssimo da formação eclesial que pode nos ajudar a sanar não só esse, mas outros desafios.


O Concílio Vaticano II, na Sacrosantum Concilium nº 64, afirma com todas as letras que seja restaurado o catecumenato na Igreja para que, por meio da instrução e dos ritos sagrados, possa a humanidade ser santificada para a edificação do corpo místico de Cristo. A Igreja firmemente deseja que todos os cristãos se sintam convidados para se fazer “ouvintes da Palavra” e, a partir da liturgia Quaresmal, conscientes de que somos sempre neófitos “em processo de conversão”. Neste contexto, o catecúmenato, na assistência do Espírito Santo, dá acesso existencial ao mistério de Deus na vida do crente, porque Batismo-Crisma se torna o Sacramento da fé, o Sacramento da conversão e o Sacramento da iniciação cristã.


Para afirmar que o Batismo-Crisma é o Sacramento da fé, precisamos afirmar que, quem adere à fé, adere a um seguimento; ou melhor, é iniciado na fé de alguém ou de um grupo e, essa ação pressupõe conversão. A Tradição sempre acentuou essa compreensão, porque “tem acesso ao Batismo quem se converte ao Evangelho.” Portanto, o Sacramento da fé é antes o Sacramento da conversão à fé; ou melhor, conversão à Boa Nova do Evangelho enquanto seguimento. O tempo forte da Quaresma é o momento por excelência para a formação dos catecúmenos (os adultos que desejam receber o Batismo na Vigília Pascal), pois renovamos a nossa confissão na morte e ressurreição do Senhor e proclama o Mistério Pascal. As primeiras comunidades sempre recorreram a esses textos da liturgia quaresmal para a formação dos catecúmenos, fato que ainda é válido para nós hoje. Nos cinco domingos da quaresma a Igreja pode encontrar pistas para compreender o verdadeiro significado do sacramento do Batismo-Crisma nestes três aspectos: na adesão à fé, na conversão ao Evangelho e na iniciação cristã.


Quando falamos em fé, estamos falando da acolhida ao chamado que recebemos por meio da pregação (Rm 10,17). Na verdade, a fé nos vem por meio de Jesus Cristo e se concretiza em nós como graça do Espírito, a convite do Pai. A resposta da samaritana no poço de Jacó figura bem o tipo de resposta que Jesus nos chama a dar, porque passa primeiro por um encontro pessoal e transformador e nos faz seus discípulos. O conteúdo da fé é o Evangelho de Jesus Cristo, como afirmam os samaritanos: “Não é somente por causa dos teus dizeres que nós cremos, nós mesmos o ouvimos e sabemos que ele é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 5, 5-42). Portanto, a fé é uma resposta existencial que esclarece e desvela tudo que ainda está obscuro, fazendo-nos capazes da Boa Nova: “se ele não viesse da parte de Deus não poderia fazer o que faz, diz o cego” (Jo 9, 5-45). Muitas vezes cantamos... “comungar é tornar-se um perigo”, porque Ele mesmo é quem se dá ao ouvinte da Palavra, na celebração eucarística. A nossa resposta só é possível animada pelo Espírito Santo como experiência pessoal e comunitária, porque Jesus é o autor e realizador da fé (Hb 12,2).


Quando falamos em conversão estamos pressupondo a liberdade, que no Espírito é doada, porque a idolatria torna a liberdade humana escrava do pecado. A tentação de Jesus quer nos ensinar algo verdadeiramente importante: o reino de Deus combate as estruturas de morte de nossa sociedade, denunciando os ídolos e nos chamando à conversão (Mt 4, 1-11). Não podemos esquecer que a conversão é a condição de todo ser humano que vive na fé e que inicia o seu processo de iluminação em Cristo. A vitória de Jesus sobre a tentação é o sinal concreto de que a liberdade humana, mediada pela graça, é convidada a se tornar liberdade “de” e liberdade “para”; aberta para uma resposta radical de amor e justiça (Rm 6, 20). Pelos sacramentos da iniciação o catecúmeno vai fazendo o seu próprio processo no discipulado respondendo para si mesmo “Quem é o Filho do Homem?” (Jo 9, 36).


Quando falamos em sacramento da iniciação estamos compreendendo que somos iniciados de forma mistagógica ao mistério da vida de Deus, revelado em Jesus Cristo, pela ação do Espírito Santo. No batismo somos iluminados e nossos olhos são abertos para ver a salvação. A iniciação cristã é uma escola da liberdade, porque como liberdade o outro é mistério e Deus, é esse eterno outro que se revela e se autocomunica. Nesta mesma dinâmica podemos compreender a posição do cego de nascimento diante dos fariseus: “Aí está, de fato, o que é espantoso, que não saibais de onde ele é; ele que me restituiu a vista!” (Jo 9, 1-41). A contradição é essa, Jesus não é uma realidade evidente por si (Escândalo para o judeu e loucura para o grego), porque o acesso a Jesus é o próprio Jesus (só conhecemos a Deus na medida em que praticamos a verdade do amor no seguimento dele).


Portanto, pensar o sacramento da iniciação a partir das leituras que estamos fazendo, seja da Tradição ou das escrituras na liturgia, é extremamente interessante, porque tomamos consciência que Cristo deseja renovar constantemente a Igreja nas águas do batismo, constituindo-nos seu corpo místico. A dinâmica do catecumenato é o caminho e melhor itinerário para fazer não só dos catecúmenos, mas todos os fiéis, “filho no Filho”, como “ouvintes da Palavra” que respondem no Espírito dizendo Abbá; fazendo da oração do Filho a sua oração.



Felipe Soriano, SJ
(Reação ao curso Batismo-Crisma, 2011/I)