quinta-feira, 1 de março de 2012

Um retiro sem máscaras...

Preparar um encontro/retiro para jovens não é coisa fácil e ainda mais no tempo do carnaval... Partindo da frase do Papa Bento na Jornada Mundial da Juventude em Madri, pensamos em construir máscaras e dar-lhes nome... porque por traz delas a juventude hoje se esconde, não olhando o mundo de frente e nem reconhecendo no rosto do Cristo o seu próprio rosto. Como nos disse o Papa: “A felicidade que vocês procuram e tem direito, tem nome e tem rosto: Jesus de Nazaré”. Mesmo na folia da cidade, dedicar tempo para o encontro com Deus e o confronto consigo mesmo é uma ousadia... No meio do silêncio, brincando, sentindo, saboreando e pintando fomos dando nome aos nossos medos, nossas máscaras, nossas incertezas e buscas... Por traz de cada máscara há uma pessoa que sonha e procura ser feliz... mas, muitas vezes, por medo, nos habituamos a ficar por traz delas e desistimos de dar passos adiante. Quando criamos coragem e tiramos as máscaras, se revela algo completamente novo que desconcerta e revela, na simplicidade do rosto e do sorriso, aquilo que somos, aquilo que nos faz ver em Jesus o nosso verdadeiro rosto.

Felipe Soriano.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ecos de uma vigília: noite mil vezes feliz 



Eis o dia tão esperado, anunciado por gerações e cantado por todas as gentes.
Os profetas de antigamente bem quiseram ouvir tal notícia.
Os reis de antigamente bem quiseram tocar naquilo que apalpamos de tal notícia. Os trovadores de antigamente bem quiseram ver o que suas rimas sempre cantaram de tal notícia.

Noite mil vezes feliz,
Noite das noites a primeira,
Noite de mil e uma, a única sem acaso e sem começo.

Eis o dia tão aguardado, cuja moldura dá a criação novo formato.
A humanidade escuta hoje o seu relato, imagem opaca que os profetas fizeram anúncio. A humanidade toca hoje o seu soberano envolto em trapos, figura opaca que os reis nunca imaginaram. A humanidade vê hoje o seu verdadeiro retrato, foto opaca que os trovadores sempre ensaiaram, mas nunca balbuciaram.

Noite mil vezes feliz,
Noite das noites a primeira,
Noite de mil e uma, a única sem acaso e sem começo.

Das ironias da história és a única que merece ser celebrada, porque,
Aquele que era esperado por todos e por tempos sem fim, parece chegar num completo improviso. Foste visitada e sem soar nenhum sino a noite era dia... tudo era plena folia. A festa apenas crescia e de dois coros um madrigal surgia.

Noite mil vezes feliz,
Noite das noites a primeira,
Noite de mil e uma, a única verdadeira.

A partir de um “Sim” humano a liberdade divina se fez ousadia;
Justiça e Paz afinam e inicia um novo canto que a todos convida.
O incrível ainda não se viu, pois quem chega há de partir, quem vai há de voltar, mas este que chegou nunca mais quis nos deixar.

Noite mil vezes feliz,
Noite das noites a primeira,
Noite de mil e uma, a única verdadeira.

Felipe Soriano

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"Enriqueceu-nos com sua pobreza" (Lc 2, 7)

Participando da novena de Natal aqui no nordeste, quero compartilhar um “Fato da vida” que compõe o material produzido para Novena de Natal - 2011 e que é oferecido pelo
Regional Nordeste 2 da CNBB - PE.

Enfrentar o dia-a-dia no semiárido nordestino não é fácil. É preciso descobrir um jeito que dê certo para vencer as dificuldades. O homem e a mulher do campo vivem com dignidade, até mesmo em situações mais extremas de miséria, mas dispostos a enfrentar são eles mesmos a ensinar no cotidiano, talvez sem se dar conta, o que significa amar com o coração: “Amai-vos como eu vos amei” (Jo 15,12).
Eis o que aconteceu com o agricultor Zé Pereira, Sitio Serra da Cruz, em Pesqueira, Pernambuco: no mês de marco deste ano, vieram as primeiras verdadeiras chuvas, depois de um ano de seca braba. Ele chegou na sede do Centro de Apoio ao Pequeno Produtor – CEDAPP – de manhã cedo. Tinha já caminhado três léguas. Rosto queimado pelo sol; nos pés, os mesmos chinelos de todo dia; nas costas, uma sacola pendurada no bastão... e com muita sede. Tomou água e um cafezinho com bolacha: coisas sagradas! Parecia estar com pressa e ansioso para falar. Da sacola puxou uma garrafa pet, cheia de milho até a metade, e falou: “Padre, São José mandou a chuva, graças a Deus. Aqui está a minha pequena ajuda para os que não têm sementes para plantar. No ano passado, consegui lucrar somente uma garrafa inteira de milho e guardei para plantar. Para mim, é suficiente meia garrafa. O resto está aqui para os mais pobres do que eu”. Sem mais nem menos, deixou a garrafa na mesa, carregou o bastão e a sacola vazia e foi embora satisfeito, apresado para plantar a outra parte da semente que certamente tornou-se alegria multiplicada e partilhada na festa de São João. Obrigado, mestre Zé Pereira, evangelho vivo. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Advento do Senhor - Ano Litúrgico B

"Não deixa a lamparina apagar!”

Estamos iniciando um novo tempo litúrgico! No início de cada novo ano, muitos brasileiros já começam cheios de dívidas no mercado e com os cartões de créditos estourados. Neste contexto, o devedor não tem saída... Precisa cuidar para não aumentar a sua dívida! Com o Evangelista Marcos é quase do mesmo jeito: o ano litúrgico já começa com o sinal amarelo! Por que será?! Marcos é o primeiro texto Evangélico da bíblia e, como tal, não tem muitas papas na língua... Na vida muitas vezes precisamos estar na companhia de pessoas como Marcos, que nos dizem ás coisas que não queremos ouvir: “Cuidado, pois não sabeis nem o dia e nem a hora!” (Mc 13, 35).
O que o evangelista nos pede para cuidar neste tempo? - Com certeza as nossas comunidades sabem que a cor deste tempo é roxo, que há de preparar a coroa do advento e de guardar o hino do glória para o Santo Natal. Então, o que ainda nos falta? O profeta Isaías é quem nos diz: “Tu te irritaste, Senhor, porque nós pecamos; mas é nos caminhos de outrora que seremos salvos.” (Is 64,4b). Então, a proximidade da vinda do Senhor é tempo de alegre espera e um convite a rever a nossa conduta (Is 64,7). Mas, ânimo meu povo, “eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho” (Mc1, 2), para chamar o povo a conversão, para salvar o que se faz perdido. “Consolai o meu povo, consolai-o! Falai ao coração de Jerusalém...” (Is 40,1-2). Porque “como um pastor o Senhor apascenta o rebanho e o reúne, com a força do seu braço e carrega-o ao colo; ele mesmo tange as ovelhas-mães” (Is 40,11).
Mas o povo ainda não conseguia reconhecer os teus sinais... e, inquieto, se perguntava porque, então, João anda batizando se ele não é o messias? (Jo 1,25). A resposta de João dá o que falar: “No meio de vós está aquele que vós não conheceis!” (Jo 1,26). Então, “cuidai de tudo aquilo que sois – espírito, alma e corpo – pois Aquele que te chamou é fiel” (Ts 5,23-24a) e já está no meio de nós. Portanto, o tempo do advento é antes de tudo convite à conversão; pois, como Maria, a Igreja deve ouvir: “Não tenhas medo” (Lc 1,30), porque “o seu reino não terá mais fim!” (Lc 1,33). Como o Senhor se aproxima, vigiai! Como quem tem contas a pagar, cuidai para que não sejais pegos de surpresa.

Felipe Soriano, SJ

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Kamak Kawsay "Bem-viver é bem conviver"

Este pequeno texto deseja contribuir na construção de uma ponte entre o tema da Agenda Latino Americana 2012 e o convite da 35º CG sobre a comunidade Jesuítica enquanto missão. Porque nosso mundo padece daquela sabedoria do bem-viver que nos ensina o Bem-conviver e cuidar do desejo. (Felipe Soriano).  

Vamos ao texto:

Torna-se um grande desafio não deixar morrer as utopias que trazemos e, da mesma forma, recolocá-las na base de nossas buscas para iniciar um novo processo de reconhecimento de si e do mundo que se abre neste novo contexto mais injusto e global. Dizia o sábio: somos filhos de nossas experiências, algumas muito bonitas e outras sofridas e delicadas. Entretanto, nossos limites não nos afastam, mas, antes, aproxima-nos uns aos outros na busca do ser supremo que dá sentido às nossas vidas que chamamos Deus. Falar de vida, de desejo e de utopia é coisa de quem ainda sonha. É coisa de quem ainda não desistiu de ser feliz com os outros; e porque aprendeu a bem-viver, convida à saber-conviver.

Na vida vamos tomando consciência de que temos maturidade suficiente para muitas coisas e, muitas vezes, sentimos a necessidade de dizer, para quem quiser ouvir, que não somos mais crianças. Ser adultos o suficiente é fato que não se pode negar, mas, com frequência, falta-nos aquela liberdade para reconhecer que “somos o caminho que escolhemos para alcançar essa vida boa, esse bem-viver, esse conviver com os outros”. Custa-nos admitir que “cada um é caminho para o outro na busca da felicidade”, porque a felicidade não está ligada apenas à satisfação de preferências ou gostos individuais, mas, sobretudo, como oferta e garantia de que todos se realizem plenamente enquanto indivíduos humanos.

Vivemos tempos difíceis onde o consumo ganha contornos políticos, sociais, econômicos, espirituais e relacionais, fazendo da busca pela felicidade um dilema que até Deus tem dificuldade para resolver. Nosso Pai, Inácio, pedia-nos insistentemente que cuidássemos do desejo, que deseje desejar... Na modernidade, o desejo de consumo não é apenas individualista enquanto tal, mas também enquanto realização. Ridículas são as frases que condensam a felicidade numa garrafa de coca-cola, aparelho de celular, automóvel do ano, roupa de marca, jóia cara... sobre o slogan  de uma boa-vida mesmo solitária, na acumulação ou confiada num progresso insustentável e a qualquer custo.

Esquecemos os antigos que afirmavam que o lugar do homem é na pólis e aceitamos passivamente o imperativo do fim da história e das utopias. Nossos pais nunca nos contaram que não é possível continuar sem Sumak Kawsay? De fato, não é estranho constatarmos que não vivemos bem, porque não é possível bem-viver sem bem-conviver. Os povos andinos de ontem e de hoje nos convidam a dizer Sumak Kawsay, denunciando a necessidade de uma mudança de paradigma, ou melhor, de mentalidade para os nossos povos. A crise econômica mundial, além de esconder grandes urgências de ordem ética e moral, é quem coloca a pergunta sobre o estilo de vida que nós precisamos neste momento da história que nos obriga repensar o homem, a sociedade e a vida no planeta. “O nosso mundo padece de gente que nos ensine a bem-viver e a contar os nossos dias” (Sl 90,12). Como desejamos um dia... há de cuidar do desejo, sempre!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O território da fé

“A comunidade eclesial é algo melhor do que um ‘aglomerado’ de indivíduos fiéis, de um serviço público da religião como consumo cultural: é um corpo vivo cujas células estão conectadas ao tecido de uma sociedade em transformação cultural permanente”. A opinião é de Gérard Defois, arcebispo emérito de Lille, na França, publicada no jornal francês La croix, 17-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto. 

Eis o texto.

O problema da Igreja em âmbito rural não é só de hoje. Há 30 anos, a maior parte das dioceses francesas realizou mudanças territoriais, muitas vezes reagrupando as paróquias em torno de uma central, que deveria se tornar o centro das atividades pastorais.

Nesse contexto, lembra-se frequentimente o trabalho do canônico Boulard nos anos 1960 em todo o país. Dele resulta a criação de equipes de padres, de conselhos de leigos para repartir as tarefas. Depois, veio o Concílio, a equipe de animação pastoral com o recurso freqüente ao cânone 517 § 2, enquanto a ação católica iniciava ações missionárias, continuavam o seu caminho.

Tendo participado da pastoral de conjunto segundo o padre Boulard, devo reconhecer que os nossos critérios de análise estavam contidos basicamente na pastoral cultual e catequética. Tratava-se, há 60 anos, de um ruralidade tradicional que estava “decolando” no plano econômico com a industrialização do material e das produções agrícolas, mas também com a formação escolar e universitária dos jovens rurais, que, passou a deixar o território de origem.

A passagem da Jeunesse Agricole Cattholique (JAC) ao Mouvement Rural de la Jeunesse Chrérienne (MRJC) é a tradução mais evidente disso. Mas nós ainda tínhamos a imagem ideal de um conjunto estável em torno da missa dominical, dentro do movimento global da sociedade. 

Hoje, o espaço rural é marcado pela mobilidade e pela fluidez da população que o habita e do qual uma parte importante não trabalha lá. Estamos bem longe da comunidade tradicional, em que a Igreja oferecia um lugar de encontro e de atividades de tempo livre, um lugar de referência para a vida moral e espiritual – aquilo que se definia como pastoral de enquadramento, com ritos e pontos de referência. Segundo esse contexto imaginário, a diminuição dos padres, dos religiosos, das religiosas se provocou uma reviravolta crítica.

Agora, o próprio território paroquial é um lugar de passagem, onde exceto um núcleo de responsáveis que desenvolve atividades funcionais se encontra de modo irregular. É a cultura da passagem, do efêmero, do específico. Queremos continuar mantendo presença de padres para desenvolver ali os mesmos serviços do passado é importante. Mas essa forma de presença revela-se inadequada sobretudo para essa situação de mobilidade.

Se o ministério apostólico do padre desempenha, esta última é, por natureza, submissa a Cristo na sua totalidade e na sua obra de comunhão. O cardeal Ratzinger, no início dos anos 1980, rejeitando um centralismo episcopal da Igreja Universal, escrevia: “A finalidade eclesiológica essencial do colégio [episcopal] não é a de formar um governo central da Igreja, mas ao contrário, de contribuir para edificar a Igreja como um organismo vivo que cresce e é unido em todas as suas células vivas” (Église, oecuménisme et politique, Ed. Fayard, 1978, p. 74).

A vida da Igreja não se reduz a uma instituição que deve funcionar a qualquer custo e de forma eficiente, senão rentável. Não tem nada a ver com a racionalidade administrativa dos serviços públicos da sociedade, da gestão de pessoal ou do funcionamento de estruturas. Ela é presença em termos de gratuidade e de dom. remonta à ordem do significado sacramental, da existência no mundo e do nascimento de um corpo.

Para isso, é preciso que nos interroguemos sobre algumas das nossas novas paróquias centradas mais em uma forma de serviço do que deve funcionar do que sobre o nascimento e o crescimento de células vivas locais.

Querer reagrupar a pastoral no centro da cidade ou nas capitais do interior comporta o risco de legar a nossa presença aos idosos aposentados, àqueles que têm bons salários, aos militantes dos anos 1970. A centralização provoca, queira-se ou não, um empobrecimento. Nos nossos dias, a vida surge muitas vezes na periferia.

No ano passado, a Conferência dos Bispos da França havia considerado realizar cerca de 60 iniciativas que anunciavam novas formas de presença nessas terras de mobilidade e de fluidez de relações: mais orientadas, mais ligadas a eventos. Encontros, peregrinações, comunidades de jovens responsáveis pela vida eclesial, crismas festivas de Pentecostes etc. fazem com que surjam formas de “eclesialidade” diferente das do passado.

Esses germes de tecido são o testemunho de uma Igreja sacramento de salvação para todos. Porque a comunidade eclesial é algo melhor do que um “aglomerado” de indivíduos fiéis, de um serviço público da religião como consumo cultural: é um corpo vivo cujas células estão conectadas ao tecido de uma sociedade em transformação cultural permanente.

A consciência de ser cristão não pode se reduzir a uma filiação ideológica, nem a convicções relacionadas a valores. É fonte de reações, traz em germe uma vida fraterna e responsável. A pastoral está ao serviço de tais relações requer um descentramento dos nossos interesses, segundo uma lógica de acompanhamento das pessoas e não de regulamentação ou de padronização das práticas.

Paulo não impôs às comunidades de Corinto nenhuma dependência a Jerusalém, mas sim relações de comunhão e de solidariedade. As Igrejas locais são lugares do Espírito, segundo o Apocalipse, porque o Espírito se estabelece e, uma comunidade de raízes humanas, aquelas em que a fé ganha vida.

Liberta-te, mesmo que tarde.

Nasceu mais um homem livre,
E morreu mais um escravo de sua própria valia.
Se todo empregado tem um preço,
Vale mais quem faz uma coisa só...
Se a vida é um jogo, quem é o melhor jogador?
Se a arte vale mais do que o artista, porque esperar que ele morra?
De fato, o que é bonito não foi feito para se mostrar...
A utilidade é quem preside o belo e o feio
E se engana quem acha que é livre para dizer o contrário.
Até o livre que pensa é medido pelo seu significado,
Mesmo que não signifique nada para ninguém e nem para os livros que escreve.
Posso achar que estou errado... mas não quero morrer enganado.
Só peço que me explique quanto vale para você o seu trabalho,
E por quanto valoram os seus aplausos?
Então, trabalhe menos, aumente mais o seu salário!
Faça tudo ficar sempre um pouquinho mais complicado.

Felipe Soriano.
20 de agosto de 2011