terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Uma Cruz Missionária que nos recorda o
labor da Companhia de Jesus na pregação do Evangelho.

(Outubro: Mês Missionário, 2019)



No dia 9 de julho de 2015, o Papa Francisco abençoou 40 Cruzes Missionárias em sua visita a Bolívia e as entregou a cada país da América como forma de preparar o 5º Congresso Missionário Americano. No dia 05 de novembro de 2018, o Papa Francisco abençoou uma réplica da Cruz Missionária que seria dada a cada diocese do Brasil no mês Missionário de 2019. Esta Cruz, que nos recorda mais de 500 anos da pregação do Evangelho, faz memória do legado da missão da Companhia de Jesus no continente.
Na iconografia dos santos missionários a Cruz é sempre levada como estandarte da glória de Deus. Sinal da Boa Notícia que, com braço estendido, é levada a todos os povos que eles são enviados. Por esse mesmo motivo vemos nas imagens de Francisco Xavier, José de Anchieta e tantos outros missionários a Cruz. Da mesma forma, os últimos Pontífices, como sinal vivo da sua Missão Universal, recuperaram a Cruz como anúncio e estandarte.
Na Tradição Cristã, a Cruz também nos recorda a Páscoa do Senhor, que nos chama a formar comunidades em seu Nome. Por isso que colocamos cruzes nas paredes das Igrejas dedicadas recordando o testemunho de sangue dos Apóstolos e sobre nossas capelas ou catedrais, como sinal do Nome daquele que nos chamou. Hoje, como ontem, a Cruz continua inspirando o anúncio do "Evangelho da alegria" em todos os povos.
A Cruz Missionária abençoada pelo Papa Francisco traz em si muitos elementos que nos recordam a primeira hora da pregação do Evangelho em nosso chão e o legado da Companhia de Jesus. Seus elementos reforçam o anúncio, o instrumento e nos chamam ao compromisso transformador que nos pede a nossa fé.
Conheça a Cruz Missionária
1) A haste está em forma de espiral ascendente. Recorda o movimento característico da missão que parte da encarnação em direção a Páscoa de Jesus, crucificado e ressuscitado que ilumina e transformando a realidade.
2) No centro, o brasão dos Jesuítas – os primeiros a anunciar a boa notícia do Evangelho aos nossos povos.
3) As flores que brotam da cruz, representam a vida nova que nasce da Páscoa de Jesus Cristo. Em meio a dor e sofrimento, Deus se manifesta e faz ressurgir a esperança e alegria do Evangelho.
4) A inscrição IHS, que nos recorda o querígma, i. é, o Nome de Jesus Crucificado - Ressuscitado.
5) As novas flores se abrem aos quatro ventos fazendo alusão aos quatro pontos cardeais, meta do anúncio que é pregado até os confins da terra.

José de Anchieta e o Sínodo da Amazônia: Uma profecia que nos coloca na defesa da terra e dos povos originários da floresta


Felipe de Assunção Soriano, SJ
Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP
felipeassj@yahoo.com.br


Com o advento da estrema direita no Brasil, setores minoritários se tornaram alvos ainda mais explícitos de intolerância, do obscurantismo e da ganância de setores econômicos no país. Tal clima, agravado por pronunciamentos da presidência da república ganham efeito explosivo na mídia, nas relações internacionais e na sociedade em geral. O desmonte de garantias fundamentais, a crescente apologia à violência, a desidratação de serviço de controle ambiental e assistencial e o aparelhamento do Estado por milícias é o mote que rege o novo momento político nacional.
Todavia, de forma ainda mais dramática, o planeta se coloca perplexo diante do tema da Amazônia e da situação dos povos indígenas. Não é estranho pensar que o tema do índio continue sendo assunto não resolvido no Brasil. Nas cartas da Companhia de Jesus encontramos uma carta de José de Anchieta ao Geral Pe. Cláudio Acquaviva, escrita na Capitania do Espírito Santo, dia 7 de setembro de 1594.
Terminado o seu mandato como provincial e instalado na Missão de Rerigtibá, José de Anchieta foi enviado ao Rio de Janeiro e a São Vicente como visitador para as casas do sul por não ser possível ao provincial, Pe. Marçal Beliarte, vir ele mesmo fazer essas visitas por causa dos franceses na costa do Brasil. O mesmo Pe. Beliarte escapou de ser capturado por Thomas Cavendish, em 1592. Não sendo menores os perigos para José de Anchieta, de canoa, sai de Santos ao Rio de Janeiro escapando de cair prisioneiro nas mãos dos piratas ingleses, refugiando-se na Ilha de São Sebastião.
A Capitania do Espírito Santo sempre chamou atenção da Companhia de Jesus, primeiro, pela bondade da terra e, segundo, pela grande quantidade de índios que se encontravam escravos nas mãos de portugueses. Não eram pequenas as artimanhas que se usavam para cativar e prendê-los, mas, também nesta capitania, tocou o Pe. Leonardo Nunes compreender que a sorte dos índios dependia diretamente da conversão dos portugueses. Os esforços da Companhia de Jesus em educar índios escravos, livres e criar aldeias visava evitar que os pais vendessem seus filhos índios como escravos.
O interesse pela mão de obra indígena, a grilagem de suas terras, o fomento de conflitos entre as nações e a negação de sua cultura foram as formas usadas para escravizá-los. Em situação dramática e com muita lucidez, escreve José de Anchieta ao Padre Geral da Companhia sobre a situação do índio nesta Capitania.
"Nesta Capitania do Espírito Santo acho agora muita perturbação, entre os portugueses uns com outros sobre pretensões de ofícios e honras, e com os Nossos, porque não lhes concedemos que façam dos índios cristãos à sua vontade, querendo servir-se deles a torta e a direita. Mas como esta é guerra antiga, que no Brasil não se acabará, senão com os mesmos índios, trabalhamos o possível por sua defensão, para que com isso se salvem os predestinados, que se não se tivesse respeito a isso, era quase insofrível a vida dos padres nas aldeias, sed omnia sustinemus propter electos" (2 Tm 2, 10)*.
Nesta carta, José de Anchieta constata que o Estado, no fundo, não sabe o que fazer com o gentio. Esta nota ressoa aos nossos ouvidos como alerta ou profecia, pois, apesar dos esforços das organizações nacionais e internacionais, o tema do índio segue inspirando cuidado. Primeiro, porque há uma questão de ofício, pois o Estado decidiu sozinho dar uma resposta à questão indígena desprezando qualquer competência e tendo-as como ameaça neste tema.
E, em segundo lugar, o desaparelhamento das instituições e organismos que trabalham com a questão indígena é sinal concreto do pouco respeito que se tem a esses povos. De fato, como alerta José de Anchieta, o Estado quer dispor das terras indígenas à sua vontade, querendo servir-se delas a torto a direito.
José de Anchieta reconhece que esta guerra antiga não se acabará no Brasil sem antes acabar com os mesmos índios. Para que isso não aconteça é necessário continuar promovendo a sua defesa, pois diante de uma sociedade agressiva e intolerante, os pobres e aqueles que possuem uma cultura diferenciada estão sempre mais vulneráveis e indefesos.
Tal chamada profética põe luz à missão da Igreja no Brasil às portas do Sínodo da Amazônia, que se dedicará a refletir sobre os reais desafios para evangelização nesta região. Novamente, estamos diante de dois projetos que visam levar desenvolvimento para a região: um que parte do respeito à natureza e sua diversidade e outro que pensa em explorar infinitamente seus recursos em detrimento dos povos originários.
A Amazônia, como bioma vivo e em conexão com o planeta, que se distribui entre nove países da região pan-amazônica, se presta ao mundo da mesma forma que se presta ao Sínodo, i. é, como metáfora do cuidado da Casa Comum. Como evento eclesial, por causa do seu caráter profético, reconhecemos o desamparo que os povos indígenas estão sujeitos sendo alvos de preconceito, discriminação de todo tipo, mas, como afirma José de Anchieta, estes pobres também são predestinados às riquezas do Evangelho.
Assim conclui o Apóstolo do Brasil em sua profecia, pois somos chamados a “suportar, porém, tudo isso, por amor dos eleitos” (2 Tm 2,10). É assim que vemos o Papa Francisco quando nos apresenta uma ecologia integral como resposta aos graves problemas socioambientais do nosso tempo. O problema do índio no Brasil, posto agora em novos termos, seja perante o Estado, seja perante a Igreja, só desaparecerá quando matarmos em nós o medo que temos do diferente e não, como pensam alguns, quando se der a plena incorporação do índio à sociedade cristã e dita civilizada.
* ANCHIETA, Joseph de. Cartas, correspondência ativa e passiva. In.: Carta do P. José de Anchieta ao Geral P. Cláudio Acquaviva, Espírito Santo, 7 de setembro de 1594. São Paulo: Loyola, 1984, p. 415-420.


O teatro de José de Anchieta na Missão de Rerigtibá: Um instrumento para a evangelização do gentio (Artigo)




José de Anchieta esteve várias vezes na Capitania do Espírito Santo e pôde constatar a bondade da terra, suas riquezas naturais e sua abertura ao Evangelho. A forma como desenvolveu o seu trabalho na Capitania do Espírito Santo, depois da chegada e consolidação dos índios Temiminós é o fato que justifica seu bom êxito missionário. Conforme afirma Simão de Vasconcelos em Vida do Venerável São José de Anchieta (1943, p. 96-97), ao terminar o seu provincialato, ele foi imediatamente viver nessa missão e colaborar na formação dos indígenas. No tocante aos espetáculos teatrais, registram-se 12 peças atribuídas a ele, sendo oito escritas na Missão de Rerigtibá. Destas oito, há uma obra em língua geral (Tupi) que merece a nossa atenção, a saber: o Auto da Assunção e sua adaptação (Separada do Teatro). No alto de sua vida, essa aldeia tornou-se o lugar propício para desenvolver sua arte, isto é, palco perfeito para a sua ação evangelizadora. O Auto da Assunção, e sua adaptação, é o fato que nos revela que essa aldeia, na verdade, foi um palco teatral na missão da Companhia de Jesus. Nosso texto, a partir desta constante, deseja destacar suas particularidades e como se fez uso das tradições ibéricas e indígenas na construção desta obra. O presente artigo foi publicado no 30º Congresso Nacional de História - ANPUH / UFPE, Recife, 2019. https://www.snh2019.anpuh.org/…/1567636140_ARQUIVO_soriano.…


Duas cidades fundadas pela Companhia de Jesus e em festa em honra da Virgem Maria: Arraial d'Ajuda / Porto Seguro - BA e Anchieta - ES.


Felipe de Assunção Soriano, SJ
Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP.


Hoje duas cidades, a de Porto Seguro – BA e a de Anchieta – ES, celebram o legado deixado pela Companhia de Jesus na fundação de seu povo, pois, ambas, conforme a tradição oral e documental, foram presenteadas com imagens da Virgem Maria. O Santuário de Nossa Senhora d’Ajuda, fundado na primeira hora de nossa chegada (1549), foi construído entre o período de 1549 a 1551 e hospeda uma imagem deixada pelo Pe. Manuel da Nóbrega. O Santuário de São José de Anchieta, sede da missão de Rerigtibá (1579), recebeu uma imagem de Nossa Senhora da Assunção entronizada pelo Pe. José de Anchieta (1590). Hoje, neste dia 15 de agosto de 2019, essas duas cidades se irmanam para celebrar Santa Maria, que foi ajuda na primeira hora da missão dos jesuítas e meta última de todo o ofício de evangelizar. Peçamos ao Senhor que, sobre a intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria, possamos responder com criatividade os desafios de hoje, com o mesmo zelo e ardor dos primeiros para a glória de Deus e proveito dos povos. Parabéns, Arraial d’Ajuda, pelos seus 470 anos. Parabéns Anchieta pelos seus 440 anos de história.

Igreja de Nossa Senhora d’Ajuda de Porto Seguro - BA:470 anos da chegada dos Jesuítas, de devoção e fé.



Felipe de Assunção Soriano, SJ
Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP
felipeassj@yahoo.com.br


Conforme a lista do Frei Agostinho de Santa Maria, das várias imagens devocionais da Virgem vinculadas a Companhia de Jesus, nenhuma delas se compara a imagem de Nossa Senhora d’Ajuda de Porto Seguro. Primeiro, por ser a Igreja do mesmo período da nossa chegada ao Brasil e, segundo, por ser devoção particular essa do Pe. Manuel da Nóbrega. Hoje, confiada aos padres Redentoristas, a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, Primeiro Santuário Mariano no Brasil, celebra junto à chegada da Companhia de Jesus 470 anos de história.
Santo Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais, na Contemplação da Cruz (EE 63), da Encarnação (EE 102) e nas Duas Bandeiras (EE 147) concebe lugar particular a intercessão da Virgem Maria, pedindo ao Pai que nos coloque junto a seu digníssimo Filho. Conforme sua devoção, também reserva à Maria as alegrias da ressurreição (EE 219), confiando-lhe a missão de cuidar da Companhia do seu Filho. É curioso, mas, sob o olhar de Nossa Senhora d’Ajuda vem crescendo a mínima Companhia.
Devoção que acompanhou Pe. Manuel da Nóbrega na sua travessia até o Brasil (nome de uma das três naus que trouxeram os Jesuítas em 1549), que recebeu lugar na primeira hora da chegada dos Jesuítas (Igreja de Nossa Senhora da Ajuda em Salvador) e que encontrou pouso definitivo nesta Ermida construída em Porto Seguro (Leite. L. III, p. 18.205, 1938). Nesta cidade, cabeça do Brasil, Pe. Manuel da Nóbrega coloca sua imagem de devoção consagrando a Companhia de Jesus à proteção maternal de Nossa Senhora.
Como narra o milagre, ao dar início à construção da Igreja, tiveram de ir os operários buscar água à força numa baixada tanto para beber como para a obra nas terras de um morador, que moveu queixa contra os padres e sua construção por estarem devastando sua fazenda. Conforme registrado, “a paixão do dono da terra cansava mais do que carregar às costas a água morro acima para a obra da Igreja”. Como reza a prática dos religiosos, diante de tamanhas tensões, decidem recorrer à Virgem Santíssima: “Ó Senhora, se agora nos concedes aqui uma fonte, ficaremos aliviados, aquele homem assossegado, e tua obra seguirá adiante!” Diz Pe. Manoel da Nóbrega: A nós “toca ter fé, pois [com essa Senhora] nenhuma cosia é dificultosa!” (Vasconcelos, Cr. II, n.71, 1865).
Ao celebrar a missa na mesma Igreja ainda não concluída, no momento de oferecer o sacrifício do Altar, Pe. Nóbrega reconhece a ajuda que dispôs a Virgem em seu favor. Ouviu um borbulhar de água que começou a sair debaixo do Altar e correr até uma árvore próxima. Diante de tamanho sinal, vinham homens e mulheres de todo o recôncavo a fonte da Virgem d’Ajuda e, entre eles, o senhor da fazenda envergonhado por causa da bondade da Virgem que lhes dera água ainda melhor e mais doce do que eles tinham. Ficando o senhor envergonhado e deveras devoto da Virgem e amigo da Companhia.
Há ainda outro fato miraculoso, por ocasião da invasão de índios que se precipitaram contra o Arraial d’Ajuda. Para evitar a destruição da imagem de Nossa Senhora seu guardião decidiu enterrá-la. Conforme a fé dos moradores, tal fato trouxe muitas bênçãos e copiosa fartura ao chão do Arraial com boas colheitas para a região. Na fé do povo, reúnem-se os elementos água e terra atribuídos a bondade de Deus e a filial ajuda da Virgem Santíssima. A fama da fonte milagrosa correu o Estado do Brasil, atraindo muitos peregrinos ao Arraial. Conforme o Frei Agostinho de Santa Maria, fonte tão virtuosa que não devia a de Nazaré e nem a de Loreto (n. 132, p. 254, 1722).
Sobre este Santuário também escreve São José de Anchieta: “O Pe. Francisco Pires foi Superior de muitas residências, assistindo também na de Porto Seguro, na Ermida de Nossa Senhora, que é da Companhia e, por sua ordem, e de seus companheiros se obrou, pelo mercê da Senhora abrir milagrosamente aquela fonte tão afamada por toda a costa do Brasil, em que se fizeram e faz muitos milagres de diversas enfermidades sob os que em romaria vão em busca de saúde, lá encontram. Usando da mesma água para outras enfermidades encontrando o mesmo resultado” (Vasconcelos, Cr. II, n. 72, 1865).
A pedido do Pe. Nilson Maróstica – Reitor do Santuário Nacional São José de Anchieta, atendendo ao convite do Pe. Casimiro Malolepszy – Reitor do Santuário de Nossa Senhora d’Ajuda – Porto Seguro/BA, recomendou o Pe. Felipe de Assunção Soriano a presidência da Celebração Eucarística, no dia 14 de agosto de 2019 – Véspera Solene da Festa da Assunção – na antiga Igreja jesuítica de Nossa Senhora da Ajuda, por ocasião das comemorações dos 470 anos da chegada da Companhia de Jesus e da construção do Primeiro Santuário Mariano do Brasil.
Recife, 15 de agosto de 2019.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Poesia: por que falamos do futuro?

Dizem que não sou claro quando falo do futuro.
Na verdade, nada é claro quando o escuro não nos faz...
Não podemos negar que somos homens do passado,
Realidade que não pode ser reduzido a capricho ou preguiça...  
É sempre loucura, até para o sábio, dar um salto desprezando o conhecido.
Já sabemos o que fizeram da nossa história quando pintaram, como papel em branco, os nossos índios.  Ó memória doída, que há muitos arrepia, um desconhecido dia irrompe... Chaleiras de louça e fortes ventos sombrios não movem o tempo, não abre caminhos... O futuro não pode ser apenas o que ainda não é, mas, também, não pode ser penas aquilo que poderia ter sido. O futuro será aquilo que deixarmos fazer, aquilo que não se pode vender ou apodrecer em cada um de nós.


Felipe Soriano, SJ

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

CEB's no contexto urbano

Preparando o 19º Encontro Regional das Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s

(Texto adaptados por Pe. Felipe Soriano, SJ a partir do Texto-base
 do 13º intereclesial das CEB’s -2014, para fim pastorais). 

              A cidade desafia o compromisso sociotransformador das CEB’s, primeiro, como lugar do encontro das pessoas em suas relações sociopolítica e socioeconômicos. No campo, os conflitos sociais aparecem de maneira mais escandalosa do que nas cidades, demandando uma postura mais combativa. Entretanto, só o fato de vir morar na cidade faz pensar que já se goze automaticamente dos seus benefícios. Tal cenário de acomodação e diminuição do fôlego transformador, mesmo com a inundação gigantesca da informação e dos bens culturais, apenas confirma a influência da cultura pós-moderna presentista e paralisadora. Mesmo ouvindo diariamente notícias vergonhosas de escândalos de corrupção na administração do bem público. Na verdade, a cidade cega e maquia muito bem suas próprias contradições fragmentando o sujeito urbano e o fechando no seu próprio individualismo.
                O segundo desafio ao compromisso sociotransformador das CEB’s se dá ante o esfriamento da prática religiosa nos centros urbanos, pois já não se veem com a mesma clareza da vida rural os antigos símbolos católicos. Como a vida urbana acelera o ritmo das pessoas, a queixa é geral: não temos tempo para nada. Nesta dinâmica, o padre bom é aquele que reza a sua missa ocupando o menor tempo possível dos fieis. Neste contexto, a fé e sua vivência passam a ser cada vez mais setorizada na vida do crente...  fazendo a religião minguar de dentro para fora. Todavia, paradoxalmente, a mesma cidade que impede a prática religiosa é a mesma que promove uma grande explosão de igrejas evangélicas, principalmente onde habitam os melhores candidatos (periferias urbanas).
                Os três pilares que dão sustentação a identidade das CEB’s são a dimensão comunitária, a preocupação social e a vivência religiosa. Sem esses três elementos em harmonia fica difícil celebrar a fé viva. A dinâmica urbana, em certo aspecto, inibi esses três elementos. Primeiro, dificulta a vida comunitário por causa da reduzido tempo para a convivência fraterna e a organização social. Sem muita motivação e empenho, dificilmente as pessoas se reúnem para o Círculo Bíblico (leitura orante da Bíblia), para as celebrações e atividades sociais. Na cidade a lógica é diferente do campo, pois se constata a passagem de uma ideia de espaço para a lógica do interesse. Por exemplo, no campo, as pessoas medem as atividades pela distância. Já na cidade não se valoriza o lugar como tal, pois um lugar só se torna importante se ele atrai e desperta interesse nas pessoas.
                Outra dificuldade que ameaça os três pilares das CEB’s é a formação de novas lideranças, pois na vida urbana a figura da liderança se faz urgente. Como a cidade fragmenta a vida social empurrando-nos ao individualismo, sem pessoas capazes de congregar o povo não fica fácil alimentar a vida de uma comunidade. Contudo, a urbanização não é o fim, pois, quando no campo a CEB era o centro, na cidade assuma-se uma dinâmica de parceria com outras organizações que lutam por um mundo novo. Contudo, tais parcerias exigem de nós agudo discernimento, pois, antes de tudo, cabe às CEB’s ser voz ética e profética em defesa dos pobres, marginalizados, injustiçados e excluídos. Nesta lógica, quanto mais numerosos forem os polos de interesse, mais ampla será a busca e a curiosidade.
                A Igreja primitiva nasceu urbana, consciente de sua vocação de ser presença do evangelho no coração da cidade, pois crescia nas pessoas um forte desejo por espiritualidade, mesmo marcadas pela violência e dureza da vida. A explosão religiosa hoje apenas confirma a carência de espiritual no mundo contemporâneo. Neste contexto, as CEB’s encontra um grande desafio: evangelizar a religiosidade do nosso povo. A religiosidade, na verdade, não pede conversão... As CEB’s têm um poderoso potencial para ajudar as pessoas envolvidas na onda espiritualista a descobrirem as exigências próprias do discipulado, isto é, a passagem da religiosidade para a fé. A Boa Nova a que conduz a conversão resume-se, em última análise, no serviço aos pobres, necessitados, marginalizados da sociedade.
                Como a cidade figura como o lugar do desejo e do prazer é necessário apresentar um novo lugar para experiências novas... A grande oferta de espaços de lazer e gozo urbano tem causado exaustão espiritual no homem moderno e, sobretudo, violência pela sedução das drogas e etc. Neste contexto, a evangelização deve ir na direção oposta: silêncio, tranquilização, paz interior e depuração do sentido do prazer. Tarefas que a vida urbana desconhece...  contudo, sente profunda falta. A igreja primitiva foi capaz, na diversidade de línguas e pessoas, construir identidade e respeito à diversidade. O desafio continua sendo o mesmo: ajudar as pessoas a passarem da obrigação para a realização humana e religiosa. E, neste contexto, a vida comunitária aparece não como problemas e sim como solução. De fato, as CEB’s precisam assumir o desafio de se tornar lugar para uma nova experiência de vida nas cidades.