terça-feira, 24 de setembro de 2013

Poesia: por que falamos do futuro?

Dizem que não sou claro quando falo do futuro.
Na verdade, nada é claro quando o escuro não nos faz...
Não podemos negar que somos homens do passado,
Realidade que não pode ser reduzido a capricho ou preguiça...  
É sempre loucura, até para o sábio, dar um salto desprezando o conhecido.
Já sabemos o que fizeram da nossa história quando pintaram, como papel em branco, os nossos índios.  Ó memória doída, que há muitos arrepia, um desconhecido dia irrompe... Chaleiras de louça e fortes ventos sombrios não movem o tempo, não abre caminhos... O futuro não pode ser apenas o que ainda não é, mas, também, não pode ser penas aquilo que poderia ter sido. O futuro será aquilo que deixarmos fazer, aquilo que não se pode vender ou apodrecer em cada um de nós.


Felipe Soriano, SJ

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

CEB's no contexto urbano

Preparando o 19º Encontro Regional das Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s

(Texto adaptados por Pe. Felipe Soriano, SJ a partir do Texto-base
 do 13º intereclesial das CEB’s -2014, para fim pastorais)

              A cidade desafia o compromisso sociotransformador das CEB’s, primeiro, como lugar do encontro das pessoas em suas relações sociopolítica e socioeconômicos. No campo, os conflitos sociais aparecem de maneira mais escandalosa do que nas cidades, demandando uma postura mais combativa. Entretanto, só o fato de vir morar na cidade faz pensar que já se goze automaticamente dos seus benefícios. Tal cenário de acomodação e diminuição do fôlego transformador, mesmo com a inundação gigantesca da informação e dos bens culturais, apenas confirma a influência da cultura pós-moderna presentista e paralisadora. Mesmo ouvindo diariamente notícias vergonhosas de escândalos de corrupção na administração do bem público. Na verdade, a cidade cega e maquia muito bem suas próprias contradições fragmentando o sujeito urbano e o fechando no seu próprio individualismo.
                O segundo desafio ao compromisso sociotransformador das CEB’s se dá ante o esfriamento da prática religiosa nos centros urbanos, pois já não se veem com a mesma clareza da vida rural os antigos símbolos católicos. Como a vida urbana acelera o ritmo das pessoas, a queixa é geral: não temos tempo para nada. Nesta dinâmica, o padre bom é aquele que reza a sua missa ocupando o menor tempo possível dos fieis. Neste contexto, a fé e sua vivência passam a ser cada vez mais setorizada na vida do crente...  fazendo a religião minguar de dentro para fora. Todavia, paradoxalmente, a mesma cidade que impede a prática religiosa é a mesma que promove uma grande explosão de igrejas evangélicas, principalmente onde habitam os melhores candidatos (periferias urbanas).
                Os três pilares que dão sustentação a identidade das CEB’s são a dimensão comunitária, a preocupação social e a vivência religiosa. Sem esses três elementos em harmonia fica difícil celebrar a fé viva. A dinâmica urbana, em certo aspecto, inibi esses três elementos. Primeiro, dificulta a vida comunitário por causa da reduzido tempo para a convivência fraterna e a organização social. Sem muita motivação e empenho, dificilmente as pessoas se reúnem para o Círculo Bíblico (leitura orante da Bíblia), para as celebrações e atividades sociais. Na cidade a lógica é diferente do campo, pois se constata a passagem de uma ideia de espaço para a lógica do interesse. Por exemplo, no campo, as pessoas medem as atividades pela distância. Já na cidade não se valoriza o lugar como tal, pois um lugar só se torna importante se ele atrai e desperta interesse nas pessoas.
                Outra dificuldade que ameaça os três pilares das CEB’s é a formação de novas lideranças, pois na vida urbana a figura da liderança se faz urgente. Como a cidade fragmenta a vida social empurrando-nos ao individualismo, sem pessoas capazes de congregar o povo não fica fácil alimentar a vida de uma comunidade. Contudo, a urbanização não é o fim, pois, quando no campo a CEB era o centro, na cidade assuma-se uma dinâmica de parceria com outras organizações que lutam por um mundo novo. Contudo, tais parcerias exigem de nós agudo discernimento, pois, antes de tudo, cabe às CEB’s ser voz ética e profética em defesa dos pobres, marginalizados, injustiçados e excluídos. Nesta lógica, quanto mais numerosos forem os polos de interesse, mais ampla será a busca e a curiosidade.
                A Igreja primitiva nasceu urbana, consciente de sua vocação de ser presença do evangelho no coração da cidade, pois crescia nas pessoas um forte desejo por espiritualidade, mesmo marcadas pela violência e dureza da vida. A explosão religiosa hoje apenas confirma a carência de espiritual no mundo contemporâneo. Neste contexto, as CEB’s encontra um grande desafio: evangelizar a religiosidade do nosso povo. A religiosidade, na verdade, não pede conversão... As CEB’s têm um poderoso potencial para ajudar as pessoas envolvidas na onda espiritualista a descobrirem as exigências próprias do discipulado, isto é, a passagem da religiosidade para a fé. A Boa Nova a que conduz a conversão resume-se, em última análise, no serviço aos pobres, necessitados, marginalizados da sociedade.
                Como a cidade figura como o lugar do desejo e do prazer é necessário apresentar um novo lugar para experiências novas... A grande oferta de espaços de lazer e gozo urbano tem causado exaustão espiritual no homem moderno e, sobretudo, violência pela sedução das drogas e etc. Neste contexto, a evangelização deve ir na direção oposta: silêncio, tranquilização, paz interior e depuração do sentido do prazer. Tarefas que a vida urbana desconhece...  contudo, sente profunda falta. A igreja primitiva foi capaz, na diversidade de línguas e pessoas, construir identidade e respeito à diversidade. O desafio continua sendo o mesmo: ajudar as pessoas a passarem da obrigação para a realização humana e religiosa. E, neste contexto, a vida comunitária aparece não como problemas e sim como solução. De fato, as CEB’s precisam assumir o desafio de se tornar lugar para uma nova experiência de vida nas cidades.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Minha história vocacional - Minha Ordenação Presbiteral.

"Sejamos um para que o mundo creia" - Jo 17,21

Eu sou Felipe de Assunção Soriano, 33 anos, natural do Recife – PE, filho mais velho do casal Rosa e Wellington e hoje Diácono da Companhia de Jesus – Jesuítas. Nestas poucas linhas, quero partilhar com vocês a minha história vocacional, ou melhor, como compreendo o que Deus veio fazendo em minha vida nestes últimos 14 anos.
Meus pais se conheceram no grupo de Jovens – MJC e, como tantos jovens do seu tempo, cheios de buscas e perguntas, foram desenhando um sonho chamado família. Por causa de meus pais, a Igreja, a vida eclesial... sempre foi a minha segunda casa. Com o tempo, fui crescendo e me tornei como tantos outros jovens um ser inquieto, teimoso e perguntador. Participei de grupo de jovens e, graças à sutileza de minha mãe, fui conduzido à música. Hoje, eu mesmo reconheço que a música é uma das realidades que mais diz de mim mesmo. Como jovem cristão num mundo em transformação, percebi que sem uma espiritualidade forte e em proximidade com os pobres, nada poderia fazer. Neste tempo, fundamos à Conferência Vicentina de São Francisco de Assis e entrei na Liturgia. Contudo, ainda faltava algo... Por onde começar? Tudo era difícil e incerto...
Depois do Crisma, tive a sorte de fazer uma forte experiência espiritual nos Exercícios Espirituais de Sto. Inácio de Loyola. O curioso foi confessar que a grande graça foi ter saído do retiro desolado. Quanto mais resistia à dinâmica, ao diário, ao silêncio e etc., por causa das urgências e afazeres pastorais, mas percebia que Deus me queria ai. Quando voltei à Paróquia, percebi que algo havia mudado. Descobrir a intimidade espiritual que tanto buscava, que me impulsionaria tanto a Deus como aos outros. Descobrir que na minha Betânia também se encontra uma Marta e uma Maria, uma, voltada a Deus, e a outra às coisas (cf. Lc 10, 41-42). Nunca mais consegui rezar novamente sem o silêncio, sem o diário e sem o jeito dos Exercícios.
Ao descobrir os Exercícios pude dar nome aos sentimentos que trazia, pois, no meio de tantas urgências sócio-pastorais, eu tinha que responder o que significava escolher a “melhor parte” (Lc 10,42). Neste novo contexto, o convite insistente do Pe. Mota, que dizia: “dessa casa sairá um padre!” ganhava sentido. O empenho pastoral do Pe. Jaime - que em tudo sonhava uma Igreja mais inculturada, mais brasileira e viva - ganhava um novo brilho. Hoje, depois de tantos anos de formação, só posso afirmar que a vocação é “dom e tarefa”, que, confesso estar recebendo de Deus e que se faz pedido de maior vínculo a serviço da unidade da Igreja. Por isso que ser jesuíta é ser um homem agradecido, porque é neste mesmo mundo desfigurado pelo pecado que Deus nos chama e nos envia.

CEB's - Crise ecológica: o fim de um modelo civilizatória.


- Justiça e Profecia a serviço da vida – 
Preparando o 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s


(Texto adaptados pelo Pe. Felipe Soriano, SJ a partir do 
Texto-base do 13º intereclesial das CEB’s -2014, para fim pastorais).

Num mundo tão interconectado e fragmentado, não é estranho pensar que essa nova realidade se configure como “grande aldeia global”. Contudo, a globalização da comunicação e da cultura é quem lança as bases e exige de nós uma nova forma de globalização. Uma globalização que não nos faça confundir a interpenetração das culturas locais com a conquista do mundo pelo sistema capitalista. Por isso, não podemos ser inocentes, o êxito do sistema capitalista reside na sua enorme capacidade de produzir riqueza. A lógica do capitalismo é a história do seu dinamismo expansionista. No pregar a lei da oferta e da procura (A. Smith), a lógica do capital assumiu diversas formas históricas desconsiderando os limites reais dos meios de produção. Por trás desta dinâmica instrumentalista da realidade esconde-se uma ideologia que hoje ameaça os limites físicos do nosso próprio planeta, isto é, coloca-se em risco toda a vida na terra. 


A humanidade está vivendo a mudança mais profunda de sua existência, pois o mito da inesgotabilidade dos bens naturais (terra, água, minérios, ar e etc.) ruiu, mas a força ideológica do predador capital permanece. Por exemplo, por 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta terra, apenas 1,7 bilhões pertencem ao modo consumista e predador da civilização contemporânea. Então, para sustentar os caprichos dessa elite mundial, são necessários 2,5 planetas para alguns ou seis planetas terra para outros. Tal crise civilizatória exige de nós novas perspectivas, pois a humanidade perdeu sua teleologia (Os grandes sistemas que orientaram a humanidade). Não precisamos ir longe para constatar os efeitos dessa lógica instrumental: “quem puder comprar, entra. Quem não puder, está posto de fora.” A necessidade de mudança se faz sentir na tecnologia, na ciência, na sociedade e na subjetividade das pessoas e na natureza. Muito se fala que “Um outro mundo é possível”, mas não sabemos mais que mundo possível queremos. Neste contexto, nossas comunidades eclesiais se veem desafiadas a reapresentar o projeto de Jesus de forma a por luz sobre essa realidade.

As CEB’s sempre tiveram como seu princípio formador a união entre fé e vida, isto é, sempre buscaram mais um modo de ser cristão que um modo de aparecer cristão. Hoje, tal opção, que nos aproxima de Deus e dos pobres, clara e simples apelo Evangélico, está sujeito a críticas dentro e fora da igreja. Para muitos não existimos mais por que não estamos na mídia e não produzimos dinheiro... mas, na verdade, somos presença nas lutas do povo no campo e na cidade e estamos no alicerce das igrejas comprometidas. Quando as CEB’s assume o desafio ambiental, da justiça, da luta pela terra, pela água, ao se porem no chão, com os pés e as mãos, de alguma forma já estão enfrentando os desafios da mudança de época. Sustentar valores como compromisso, solidariedade, justiça, preservação ambiental é marchar contra a corrente. Por exemplo, os peixes que na piracima desistem de correr contra a correnteza não se reproduzem, não se renovam, não iniciam novo ciclo de vida, mas servem apenas para serem pescados e consumidos pelos homens.